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Segurança na Europa: uma matéria pendente

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O atentado perpetrado em pleno centro de Londres nas portas do Parlamento Britânico se soma a uma lista trágica de ataques que vem se repetindo em importantes cidades da Europa. Dentre outras, Bruxelas, Paris, Berlim e Nice. A segurança nas principais cidades europeias e as medidas tomadas pelos Estados não foram efetivas no combate ao terrorismo internacional, aumentando os reflexos na opinião pública em relação a temas sensíveis, tais como a migração, o auxílio aos refugiados, o respeito às diversidades cultural e religiosa, e as políticas de segurança pública.

A segurança da Europa sempre foi uma matéria pendente de discussão. O continente nutriu desde a Segunda Guerra Mundial uma forte dependência dos Estados Unidos para proteger a Europa frente as ameaças internacionais. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se transformou na salvaguarda da Europa, embora a participação dos países europeus na manutenção da organização tenha começado a ser questionada na Era Obama – após a Crise Financeira Internacional e a Crise Síria –  e voltado a ser tema de discussão com a gestão de Donald Trump. O mandatário americano mencionou abertamente em redes sociais o débito da Alemanha nesse setor, além de mandar o recado para os demais países da Aliança, o que gerou um alerta na região para que se voltasse a discutir a criação de um Exército Europeu.

A União Europeia trabalhou no projeto de criação de um Exército Europeu, mas as assimetrias entre as suas unidades, a instabilidade política e a crise enfrentada pelos os países do Sul inviabilizaram a concretização do projeto. Atualmente, o mesmo tema voltou a pauta, após o aumento das pressões da OTAN. Por outro lado, embora exista uma Polícia Europeia, a Europol, a mesma não possui a autonomia necessária para garantir a integração dos serviços de segurança pública, nem a capacidade de fazer uso da força coercitiva sem ultrapassar a jurisprudência das próprias polícias locais de cada país.

Mesmo que seja patente a necessidade de discutir a segurança tanto internacional quanto pública na Europa, a situação política do continente e o aumento das divergências colocam em segundo plano a questão da segurança, transladando o mesmo para o âmbito nacional de cada país. Até mesmo o posicionamento da Europa em temas internacionais, como a situação da Síria, diverge de nação para nação, além das políticas de combate ao terrorismo, onde, mesmo havendo uma diretiva comum, cada país aplica-a de forma diferente e toma decisões de maneira autônoma.

O terrorismo é como uma quimera, possui diversas faces e se expande pelo mundo usando as próprias facilidades geradas pela globalização. Existem diferentes espectros e dimensões desse fenômeno, sendo cada dia mais difícil o combate eficiente ao terror. Frente a essa situação, muitos países adotam medidas radicais, gerando a criminalização das supostas fontes do terrorismo, tais como o Islã, sem diferenciar o extremismo religioso da vivência religiosa, o fundamentalismo da cultura, sendo que essa própria marginalização é uma fonte poderosa que alimenta uma nova cara do terrorismo, que alista diariamente jovens deslocados e não inseridos socialmente, os quais são atraídos pela inerente necessidade humana de se encaixar em um grupo e se reconhecer socialmente.

Outro fator importante e por vezes ignorado é a própria realidade demográfica das nações afetadas e sua partição recente na formação territorial de países onde, hoje, o terrorismo é uma realidade.

O combate ao terrorismo precisa abranger as diferentes dimensões que o geram. A segurança deve agir de forma estratégica para não gerar efeitos sociais catastróficos e aumentar as tensões sociais e, consequentemente, políticas. Ao final, “A guerra é a continuação das relações política por outros meios”, conforme dizia Clausewitz.

Por esse motivo, o combate ao terrorismo na Europa precisa ser encarado por diferentes ângulos. Por um lado, o continente deve ampliar a integração dos serviços de inteligência e dos órgãos de segurança pública; avaliar o real impacto social das políticas que afetam a população, sejam elas políticas de integração de estrangeiros, ou políticas sociais em geral; definir uma estratégia comum para combater o terrorismo (que não conhece fronteiras e nem entende de blocos regionais). Por outro lado, deve também ampliar sua atuação, não somente nas comunidades passíveis de serem aliciadas pelo terrorismo, mas, também, nas nações vizinhas que alimentam essa máquina devido a sua incapacidade econômica ou de infraestrutura, fornecendo a elas inteligência europeia para o combate ao terrorismo, vendo assim o vizinho como um colaborador e não como um possível inimigo na questão do terrorismo internacional.

É um tema que, sem dúvidas, deve ser discutido não somente pelos líderes de Estado e no âmbito da segurança, mas também no âmbito público, econômico, social, jurídico etc. Dessa forma, será possível criar uma Hidra capaz de combater a Quimera que aterroriza a Europa e ameaça o mundo inteiro.

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Imagem 1 Mapa político de países membros da União Europeia e da OTAN” (Fonte):

https://conceptdraw.com/a1130c3/p1/preview/640/pict–political-map—eu-and-nato-european-membership-of-the-eu-and-nato-map.png–diagram-flowchart-example.png

Imagem 2 Reunião da OTAN” (Fonte):

https://nato-uniform.com.ua/images2/NATO-logo.jpg

Imagem 3 Atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Terrorismo

Imagem 4 General Carl von Clausewitz” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_von_Clausewitz

Imagem 5 Héracles mata a Hidra de Lerna Por FrançoisJoseph Bosio / Museu do Louvre” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hidra_de_Lerna

About Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e cursando mestrado em Políticas Sociais e Migrações pela Universidad de La Coruña. Atua como consultor internacional do Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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