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O Novo Oriente Médio

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O Oriente Médio, palco de muitas batalhas e cenário geoestratégico para muitos atores internacionais, na sequência da Primavera Árabe foi sacudido por mudanças que, ao contrário de muitas análises da época, não significaram a democratização da região nem, sequer, melhores condições de vida.

As mazelas sociais, fruto da alienação de regimes políticos autoritários e corruptos resultou, em dezembro de 2010, na morte de Mohamed Bouazizi, um jovem tunisino desempregado que, impedido pelas autoridades de seu país de vender legumes para garantir a sobrevivência, ateou fogo ao próprio corpo. O ato desencadeou uma onda de protestos em vários países do Oriente Médio e culminou na queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, no Egito, e Muammar al-Gaddafi, na Líbia.

Na Síria, as contestações ao regime de Bashar al-Assad levaram à guerra. As consequências que, desde então, têm atingido a região contrariam as perspectivas ocidentais feitas naquele momento, de um mundo mais alinhado ao modelo de democracia ocidental. No auge dos acontecimentos, muitos analistas ignoraram o fato de que essas sociedades, após anos de submissão e desemprego, poderiam tomar uma direção diferente daquela esperada por quantos se encontravam no comando dos centros de decisões globais.

As revoltas que, para o Irã, foram denominadas de despertar islâmico, tomando como base a própria revolução iraniana de 1979, talvez, nos dias de hoje, tenham mais sentido se, partindo do pressuposto de que, paralelamente a um Oriente Médio desestabilizado, pode-se dizer que há sinais de um poder iraniano ascendente na região, bem como a ascensão do extremismo religioso.

A expressão Novo Oriente Médio foi usada pela primeira vez em 2006, por Condoleezza Rice, Secretária de Estado dos EUA, em “substituição ao termo mais antigo e mais imponente, Grande Oriente Médio”, que coincidiu com a inauguração do Terminal Petrolífero Baku-Tbilissi-Ceyhan (BTC) no Mediterrâneo Ocidental e, também, com a guerra entre Israel e o Líbano.

Os elementos que justificaram o propósito daquela designação para a região, não assumiram os contornos esperados pelos EUA e a Grã-Bretanha, cuja intenção era redesenhar as fronteiras regionais sob a alegação de resolver os problemas do Oriente Médio atual. Porém, os acontecimentos que se sucederam ao longo dos últimos anos não permitiram a concretização dos objetivos anglo-americanos e se opondo aos interesses dessas duas potências ocidentais hoje, as antigas e as novas forças políticas tentam definir áreas de influência que poderão resultar numa nova ordem regional.

As presenças do Irã, da Rússia e da Turquia na Guerra na Síria, por exemplo, somadas aos episódios dos últimos seis anos, provocados por aquele conflito, no rescaldo da Primavera Árabe, aponta um novo direcionamento das lideranças mundiais para questões mais recentes. Demandas tradicionais, como a criação do Estado palestino, não saíram da agenda, mas estão em segundo plano. De acordo com as informações recentemente veiculadas, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o rompimento de uma relação histórica dos EUA relativamente ao conflito israelo-palestino.

A Palestina que, por muitas décadas, foi o epicentro de várias contendas envolvendo Israel, o mundo árabe e o Ocidente, parece que deixou de o ser. Esta é uma das evidências que dividem o antigo Oriente Médio e o novo. Ao longo dos anos, a região tem sido remodelada e, para o bem ou para o mal, os EUA estiveram sempre presentes. Quando o Presidente Trump afirmou: “Olho para a solução com dois estados e com um estado e gosto do que israelenses e palestinos gostarem. Aceito as duas opções”, de fato a sua administração não tem interesse no problema. No entanto, ele não cogitou, até hoje, a saída das tropas norte-americanas da Síria.

Segundo informações, o Oriente Médio continua a ser relevante para os norte-americanos. Os Oficiais aposentados dos Serviços Estrangeiros afirmam que configuram interesse prioritário as áreas da “Turquia ao Irã, através da Península Arábica – que definem o novo panorama da política externa americana no Oriente Médio”. Neste contexto, os EUA não estão deixando a região, mas, se o fizerem, emergirá a pergunta sobre quem será o líder do novo Oriente Médio. Muitas coisas serão definidas no futuro, mas as alterações já são perceptíveis no presente.

Foi noticiada, pela BBC, no início deste mês, a possibilidade de uma guerra que envolva Israel no novo Oriente Médio, a partir da Síria, que alterou o mapa estratégico da região. Em conformidade com uma notícia recente, o que mais assusta Israel são as vitórias no Norte da Síria pelas forças de Bashar al-Assad e de seus aliados, o Irã e o Hezbollah. Para o Professor Asher Susser, do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, “as mudanças na Síria, trouxeram o Irã para mais perto das fronteiras de Israel do que nunca”, situação que origina “a possibilidade da cooperação entre o Irã e o Hezbollah não apenas ao longo da fronteira entre Israel e Líbano, mas também ao longo da fronteira entre Israel e a Síria”. Para o Professor, isto corresponde a “um potencial perigoso para uma longa fronteira do Mediterrâneo, através do Líbano e da Síria, com o Hezbollah e o Irã muito perto de Israel, que nunca enfrentou esse tipo de situação em sua fronteira norte”.

Vários aspectos vêm sendo alterados na parte mais conturbada do planeta. Uma nova configuração geoestratégica começa a tomar forma. O antigo Oriente Médio está a ser substituído gradativamente pelo novo, no qual a Palestina passou a ocupar o segundo plano na agenda internacional, enquanto que a Síria é a pauta do momento. Isto porque este país árabe concentra as mais variadas forças regionais e estrangeiras jamais vistas num conflito de mesma natureza, o que modifica as estruturas do passado. Este status quo já está sendo alterado nos Montes Golã, cuja fronteira foi, em tempos, considerada a mais pacífica de Israel. Praticamente todos os acontecimentos e notícias sobre o cotidiano da Síria convergem para a construção de um novo Oriente Médio e de novas políticas para a região, que ainda estão por definir, mas já estão em curso.

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Imagem 1 Mapa do Oriente Médio” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/13/Middle_east.jpg

Imagem 2 Mohamed Bouazizi” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Suicide_of_Mohamed_Bouazizi#/media/File:Mohamed_Bouazizi.jpg

Imagem 3 Oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Oleoduto_Baku-Tbilisi-Ceyhan

Imagem 4 Dois caças Su-25 na base aérea russa em Lataquia, na Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Intervenção_russa_na_Guerra_Civil_S%C3%ADria

Imagem 5 Conflito israelo-palestino: Central de Israel ao lado da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, 2007” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_israelo-palestino

Imagem 6 Lago Ram próximo ao monte Hérmon (ao fundo), no nordeste das colinas de Golã” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Colinas_de_Golã

About Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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