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O novo enfoque para Ásia do Governo estadunidense

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A viagem do secretário de Estado Rex Tillerson à Ásia introduziu para a nova cena diplomática estadunidense mensagens que consolidam o interesse da administração Trump em construir um arcabouço cooperativo amplo com os já tradicionais aliados Japão e Coréia do Sul, mas também com a China, cujas disputas comerciais, político-diplomático e territoriais constituíram entendimentos dúbios sobre se haveria na China interesse em formalizar uma parceira estratégica para essa nova era da política estadunidense, ou se o relacionamento teria como base a competição estratégica.

Em Tóquio, para iniciar o giro asiático, Tillerson se encontrou com o chanceler japonês Fumio Kishida, uma reunião complementar àquela ocorrida em fevereiro na residência de Trump, em Mar-a-Lago, Flórida, com o primeiro-ministro Shinzo Abe, quando discutiu o futuro da relação Estados Unidos-Japão diante das tensões recorrentes na região.

Com seu homônimo japonês, o Secretário de Estado, assim como fez ao longo do giro pela Ásia, solicitou uma nova abordagem para a Coréia do Norte depois de vinte anos de diplomacia e incentivos não terem alcançado o objetivo do desarmamento nuclear.

O Chanceler, que chegou para sua primeira viagem ao continente após quinze dias de Pyongyang ter lançado quatro mísseis de longo alcance no Mar do Japão, também pediu maior cooperação entre Washington, Tóquio e Seul, mensagem que é sempre lançada por diplomatas estadunidenses que visitam a região.

Na segunda etapa da viagem, em Seul, Tillerson usou de tom mais incisivo para alertar que uma ação militar contra o norte da península era cogitada, especialmente se o programa de armas atingisse nível que requeresse uma ação preventiva, embora preferencialmente deva ser evitada em detrimento de negociações multilaterais.

O Secretário, que se reuniu com autoridades governamentais que cuidam dos assuntos de Estado desde a destituição da presidente Park Geun-hye, também declarou o fim da “paciência estratégica”, uma crítica ao antecessor, Barack Obama, reafirmando que medidas em segurança e econômicas são as principais diretrizes do novo Governo para eliminar as tensões na região.

Na China, Rex Tillerson se reuniu com o presidente Xi Jinping e, com um tom conciliatório e cuidadoso ao extremo, de acordo com alguns especialistas em China, demonstrou publicamente os anseios de desenvolver maior cooperação e alargamento das relações, principalmente no que tange as instabilidades com a Coréia do Norte.

Após o encontro, em entrevista coletiva com o chanceler Wang Yi, o Secretário de Estado repetiu o tom conciliatório e cooperativo afirmando que o relacionamento EUA-China seria orientado pelo “não-conflito, não confronto, respeito mútuo e cooperação ganha-ganha”, termos estes duramente criticados dentro dos Estados Unidos e saudado pela cúpula do Partido Comunista chinês.

Os termos “respeito mútuo” e “não-confronto”, de acordo com diplomatas estadunidenses, são codificados em Beijing para acomodação norte-americana em uma esfera de influência chinesa na Ásia, ou seja, os Estados Unidos, diante da interpretação oriental, recuariam e respeitariam as demandas da China sobre temas como Taiwan, Tibet e Mar da China Meridional. Quanto à expressão “ganha-ganha”, ainda dentro do entendimento chinês, seria como se a China ganhasse por duas vezes.

Em complemento ao encontro Estados Unidos-China, os programas nucleares e de mísseis da Coréia do Norte, que estavam no topo da agenda de Tillerson nesta visita, ganharam apoio do chanceler Wang, que, dias antes, propôs a Pyongyang que congelasse seu desenvolvimento nuclear, tendo como contrapartida ação igual em relação aos exercícios militares conjuntos realizados por Estados Unidos e Coréia do Sul.

Diante de um enfoque voltado para recrudescer o papel beligerante da Coréia do Norte na região, a viagem do secretário Tillerson à Ásia, que culminou em uma abordagem militar, possivelmente trará alguns aspectos proibitivos para que essa opção não seja aprofundada. Primeiro, em virtude do programa THAAD (Terminal High Altitude Area Defense), desenvolvido pelos Estados Unidos, que consiste na colocação de mísseis antibalísticos na Coréia do Sul. A China considera a colocação do escudo THAAD como uma ameaça à sua segurança nacional e, ao partir do pressuposto de que a viagem tenha sido para estabelecer parcerias, essa iniciativa militar na Coréia do Sul levaria a um impasse.

Outro fator considerado por especialistas em Ásia é a opção militar contra Pyongyang, que culminaria em instabilidade, tal como testemunhado no Iraque, Afeganistão e Síria, conflitos estes que apresentaram inúmeras imprevisibilidades, incluindo nas consequências.

Ainda em complemento a essa conjuntura, uma mudança de regime, ou um conflito militar abrangente na fronteira com a China poderia acarretar em um ambiente desestabilizador, não obstante o aspecto nuclear e, por conseguinte, uma abordagem alternativa liderada por Beijing com conotação diplomática, tal como a Six-Party Talks (Coréia do Norte, China, Rússia, Japão, Coréia do Sul e Estados Unidos), seria uma oportunidade, apesar de ter sido rechaçada no passado recente por Obama e provavelmente não seria a primeira opção para Trump.

Ao colocar a opção militar sobre a mesa, a administração Trump pressiona a China a impor novas ações contra a Coréia do Norte por seu próprio ímpeto, uma vez que as recentes provocações de Kim Jong-un pressionaram Beijing a parar as importações de carvão norte-coreano até o fim de 2017, passo considerado ousado por analistas internacionais e que a administração Trump poderia usar para domar o imprevisível regime norte-coreano.

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Imagem 1À esquerda o Ministro de Relações Exteriores do Japão Fumio Kishida, Secretário de Estado Rex Tillerson e Yun Byungse, Ministro das Relações Exteriores da Coréia do Sul” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Rex_Tillerson#/media/File:Secretary_Tillerson,_Japanese_Foreign_Minister_Kishida,_and_South_Korean_Foreign_Minister_Yun_Pose_for_a_Photo_Before_Their_Trilateral_Meeting_in_Bonn_(32897966296).jpg

Imagem 2Secretário de Estado, Rex Tillerson com o presidente chinês, Xi Jinping” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/China%E2%80%93United_States_relations#/media/File:President_Xi_Jinping_Greets_Secretary_Tillerson_(33139050550).jpg

Imagem 3THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) é lançado durante teste de interceptação” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Terminal_High_Altitude_Area_Defense#/media/File:The_first_of_two_Terminal_High_Altitude_Area_Defense_(THAAD)_interceptors_is_launched_during_a_successful_intercept_test_-_US_Army.jpg

Imagem 4Zona desmilitarizada que separa a Coréia do Sul do Norte” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Korean_Demilitarized_Zone#/media/File:070401_Panmunjeom3.jpg

About Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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