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Entrevista com Padre Sírio que esteve frente a frente com o Estado Islâmico

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Na guerra você pensa somente na obrigação e as emoções ficam no freezer”, Samaan Nasri

Samaan Nasri, o atual pároco da Igreja Ortodoxa Antioquina São Jorge, em Curitiba, viu a sua igreja e casa, em Tabqa, na Síria, serem destruídas pelo Estado Islâmico. Após retirar todos os seus paroquianos da cidade, ocupada pelos radicais, ele saiu do território sírio. Está vivendo no Brasil, há três anos.

Pergunta: Qual a sua opinião sobre a guerra civil na Síria e a participação de grupos fundamentalistas islâmicos?

Resposta: Como padre eu não tenho uma visão clara nesse ponto político, mas acho que essa frase, guerra civil, não está correta, porque não é uma guerra civil. Ainda tem um Governo na Síria que está cumprindo com a sua obrigação, que é cuidar e defender os habitantes que estão lá. A gasolina dessa guerra vem de fora da Síria, não é 100% síria. Na minha cidade [Tabqa], por exemplo, quando o Governo sírio saiu de lá, a administração ficou em mãos de 3 juízes de fora da Síria; dois deles eram da Líbia e o outro, que era o principal, era da Arábia Saudita. Então, essa palavra, guerra civil, não é 100% correta. Também tenho que deixar claro para os brasileiros que esses grupos islâmicos não estão fazendo tudo o que temos visto em nome do Islã. Em nome do Islã, tem muitos muçulmanos cuidando do nosso povo, enquanto que naquilo que esses grupos estão fazendo em nome do Islã estão envolvidas a propaganda e uma agenda econômica. Os radicais têm salários, dinheiro, comida, remédios. Eles têm tudo, como num hotel de cinco estrelas. Não estão fazendo isto em nome do Islã. Nós sabemos quem são os verdadeiros muçulmanos, esses grupos não são muçulmanos.

 

Pergunta: Por que alguns países têm interesse na Síria? O senhor tem conhecimento se alguns desses países financiam os grupos jihadistas? Qual o propósito?

Resposta: É uma pergunta muito interessante e precisaria de um ano para responder. Primeiro, é a posição geográfica da Síria: entre a Ásia, a África e a Europa. A Síria é um país muito rico em petróleo e gás natural e a sua localização entre a Ásia, a África e a Europa desperta o interesse das grandes potências mundiais. A Síria tem uma das cidades mais antigas do mundo, que ainda é habitada. Tem cidades mais antigas, mas Aleppo, a cidade onde nasci, tem pessoas desde há 12.500 anos. O mercado antigo de Aleppo, que é coberto, tem 13 Km de lojas. Aleppo, a capital industrial da Síria, antes da guerra, tinha 115.000 empresas industriais. Ela é a primeira cidade do Oriente Médio. Esta cidade tem 50 empresas de Medicina e o destino desses produtos é a África, de modo que a produção de medicamentos cobre o continente africano. O Governo sírio criou o ISO 9001 e 9002 para que os comerciantes pudessem exportar os seus produtos para o mundo inteiro. Aleppo vendia, antes da guerra, 75 milhões de produtos diariamente para o Iraque, que também está destruído por causa da guerra. A Síria era o 3.º país em segurança, e o 1.º país na produção de algodão, de azeitonas e de azeite.

No âmbito da Educação, na Síria, as pessoas podem estudar gratuitamente e formar-se médicos, arquitetos, engenheiros, professores, sem pagar nenhum centavo. O aluno do Ensino Fundamental estuda três línguas. Os meus filhos, depois de três anos aqui no Brasil, estão estudando coisas que eles já tinham estudado na Síria. O computador entra para o currículo escolar entre o Ensino Fundamental e o Médio. O acesso à tecnologia é financiado pelo Estado. As pessoas podem emprestar dinheiro do Governo para comprar um computador para a sua casa e colocar uma linha de internet, pagando em até 5 anos. As Igrejas não pagam água, luz, não pagam impostos, podem fazer eventos e ninguém atrapalha. Esse mosaico sírio era bem forte antes da guerra. Então, há muitas coisas que despertam a vontade de quebrar esse país.

 

Pergunta: Como o senhor descreve o Estado islâmico?

Resposta: Eles são disciplinados, programados como um computador. Quando é para transmitir uma mensagem, somente uma pessoa fala. Quando eles entraram na minha igreja, era um grupo de 30 pessoas, e um deles disse: xeique, nós temos uma missão aqui na igreja e o senhor tem que sair. Como uma máquina, bem programada, somente uma pessoa falou durante 2 minutos a mesma palavra: tem que sair, tem que sair, temos uma missão. A missão deles era quebrar todas as cruzes da igreja como um sinal de que não querem cristãos. Três meses antes dessa história, eles raptaram um rapaz e disseram que queriam conversar com o padre. Um mês antes de pedirem para falar comigo haviam matado um padre em Damasco. Então fiquei com medo, até a minha família ficou com medo, mas tenho responsabilidades com os meus paroquianos e o pai do rapaz me pediu, por favor, para eu ir conversar com eles. Fui falar com eles com muito medo, mas com a força de Deus, porque tinha que cumprir com a minha obrigação. Durante a guerra você pensa somente nas obrigações e as emoções ficam no freezer. Então, fui ao encontro dos membros do Estado islâmico e devolveram o rapaz, a chave e as mercadorias da loja dele, e disseram: vocês são nossos amigos, nossos irmãos. Três meses depois, eles quebraram a santa cruz e, um mês depois, começaram a matar os jovens cristãos. Os jovens cristãos esconderam-se nas casas dos muçulmanos, no depósito dentro da casa. Como é um costume na Síria, as casas têm um depósito. As famílias muçulmanas colocaram os jovens cristãos dentro desses depósitos. Esses são os verdadeiros muçulmanos. Depois de um mês eles emitiram uma fatwa que era para matar os cristãos, mas não havia mais nenhum cristão na cidade, pois já tinham saído todos, tirei todos da cidade. Para fazer a propaganda, dois meses depois, decidiram que os cristãos tinham que pagar a jizya, um imposto religioso para aqueles que não são muçulmanos, em troca de proteção. O imposto consistia no pagamento de 17 gramas de ouro por ano para os ricos, mas havia apenas 3, 4 cristãos. A fatwa foi para fazer propaganda do Estado Islâmico. Depois, nos vídeos que saem na mídia, esses guerreiros não morrem, nem se caírem sobre eles umas três bombas.

Cada grupo tem um financiador e, se esse financiador fechar a torneira do dinheiro, o grupo acaba em 24 horas. A Frente al-Nusra [a atual Frente da Conquista do Levante] diz que não são terroristas, são guerreiros normais, mas como? Tem gente fornecendo dinheiro, pagando os salários dos guerreiros. O salário de um guerreiro do Estado Islâmico, há 3 anos atrás, era de 3 a 4 mil Dólares por mês. Aqui no Brasil você pode fazer o Estado Islâmico: vai para as ruas, pega as pessoas sem abrigo, paga salários para elas, dá autoridade para elas pelas armas, diz para elas que o reino de Deus está cheio de cerveja, Carnaval, futebol, o jogo de futebol não termina nunca e o Brasil ganha sempre. Faz uma imagem maravilhosa do reino de Deus [Paraíso] que eles vão com você. A religião é somente uma jaqueta desse grupo, uma jaqueta, eles têm outro objetivo.

 

Pergunta: Qual a sensação de estar frente a frente com combatentes do Estado Islâmico, o grupo jihadista mais temido da atualidade?

Resposta: Como padre, coloquei as emoções no freezer e cumpri somente com as minhas obrigações. Eu tinha certeza que não iria morrer, mas não sei por quê. Tinha que conseguir a paz para os meus paroquianos. Como ser humano eu estava muito fraco, mas Deus me deu muita força. Depois da batalha grande, travada entre os jihadistas e o Exército Árabe da Síria, saí da minha cidade e, um mês depois, voltei, mas não dava para viver. Algumas famílias ficaram, mas quando o Estado Islâmico começou a matar os jovens, todas as pessoas saíram.

Eles são programados, disciplinados, não demonstram emoções, não demonstram nada. Por exemplo, a mulher tem que usar o vestido até abaixo do tornozelo e se for acima eles dizem que o Islã não aceita. Neste caso, chamam o marido, pedem para ele falar com a sua esposa e dizer para ela se cobrir por inteiro. Eles também mudaram os livros nas escolas, nas Universidades. Eles são como um Governo, um Estado, eles têm muito poder.

 

Pergunta: Qual a situação dos cristãos na Síria, atualmente?

Resposta: A situação dos cristãos é como a situação dos sírios. Todos são atingidos por bombas, independentemente da identidade. Cristãos e muçulmanos perdem as suas casas. Se uma igreja foi destruída, foram destruídas 20 a 30 mesquitas; se mataram 10 cristãos, mataram 1.000 muçulmanos. O Estado Islâmico não é somente contra os cristãos, porque as perseguições também são contra os muçulmanos e isto tem que ficar claro. Por exemplo: o profeta Maomé rezava de três modos, mas se o Estado Islâmico entrar numa mesquita e os muçulmanos não rezarem do modo como eles determinaram, não são considerados muçulmanos. Eles são contra todos: cristãos, alauitas, xiitas, sunitas. Claro que os cristãos sofrem muito, pois têm muitos padres mortos, igrejas destruídas, mas os muçulmanos são mais. Então, o problema dos cristãos é o mesmo de todos os sírios, porque a crise e a fome estão para todos. Muitos cristãos saíram da Síria, eu tive esta sorte de sair. A minha mãe e os meus irmãos viajaram ilegalmente pelo mar e tiveram a sorte de chegar à Grécia em paz. Mas muitos sírios morreram no mar. Aqueles que tinham dinheiro viajaram.

 

Pergunta: Qual o pior trauma provocado pela guerra, principalmente pela ação dos radicais islâmicos junto às pessoas? O senhor pode descrever?

Resposta: O sofrimento veio devido à troca do modo de vida. Esse trauma vem desse outro modo de vida. O povo sírio não está acostumado com o modelo de vida fechado estabelecido pelo Estado Islâmico. Os sírios estão acostumados, por exemplo, a ir à noite ao rio Eufrates. Em Raqqa, todo mundo vai ao rio à noite, mas o Estado islâmico diz que é proibido os homens ficarem junto com as mulheres, lá. Tudo isso gera sofrimento porque os homens e as mulheres estão acostumados a conviver juntos. Em Raqqa, as mulheres pegam táxis, conversam com homens, porque são parentes, são da mesma família. Agora, o Estado Islâmico entrou e determinou que roupa usar e que roupa não usar, que os homens têm que ter barba grande. Você é padre e não pode jogar vídeo games. Esse sofrimento veio pelo fato de mudar o modo de vida. Para eles ou é permitido ou é proibido. Aquele que tem poder e que tem dinheiro deixou o território do Estado Islâmico, pois nem os muçulmanos sunitas conseguem viver com eles, mas aqueles que não têm parentes fora da cidade, que não têm dinheiro para alugar um apartamento, que não podem deixar a loja que têm, esses não podem sair.

 

Pergunta: Quais as principais dificuldades que as pessoas encontram para sair da Síria?

Resposta: A principal dificuldade é conseguir o visto. O Brasil foi o país mais fácil para os sírios conseguirem o visto. O Governo e o povo brasileiro abriram as portas. Todos os sírios que estão aqui têm o visto e agora estão com permanência de cinco anos. O Governo brasileiro tem tratado os sírios com respeito e na identidade não está escrito refugiado, mas residente, isto é dignidade. O Brasil está em crise e vamos rezar para esta crise passar. Os sírios querem trabalhar e há muitas famílias registradas nas Ruas da Cidadania, CRAS [Centros de Referência da Assistência Social], há muitas famílias registradas e ganham o Bolsa Família, cestas básicas, vale-transporte. A Universidade Federal tem uma vaga por ano para estrangeiro refugiado ou imigrante e isto é uma coisa muito boa.

Os Governos do Canadá, da Austrália e da Europa estão ajudando muito, mas tem que ter contrato de trabalho. Os Governos europeus não concedem visto, eles não têm mais dinheiro, há muitos refugiados. Eu, que tenho passaporte sírio, não posso viajar em voo direto para a Europa, mas somente naqueles voos que têm escala em um país árabe ou africano, mas sem sair do aeroporto. Está difícil sair da Síria por causa do visto, ou tem que viajar ilegalmente. A minha mãe viajou ilegalmente e vendeu a casa para pagar às pessoas que deram documentos para ela. Ela ficou 9 horas no mar para atravessar 1 Km entre a Turquia e a Grécia.

 

Pergunta: Qual a sua posição em relação às autoridades brasileiras no que diz respeito ao pedido de refúgio, documentação e meios de sobrevivência dos refugiados no Brasil?

Resposta: O atendimento é bem forte. No primeiro dia, ganham o protocolo com foto/pedido de refúgio. Um ano e seis meses depois, ganham o RNE [Registro Nacional de Estrangeiro] por cinco anos e podem conseguir a Carteira de Trabalho, CPF, abrir uma empresa, podem estudar. As crianças, em Curitiba, podem entrar para qualquer Escola Estadual, ou Municipal, em 24 horas. O Governo brasileiro facilita bastante a parte da documentação. Uma das dificuldades com os sírios é a seguinte: levei muitas famílias sírias para a Cáritas e perguntavam qual a necessidade e elas diziam que não tinham necessidades, mas não tinham dinheiro nem para a alimentação. Querem trabalhar e não querem as cestas básicas. Eles querem trabalhar, mas o idioma dificulta e, por isso, encontram muitos problemas para entrarem no mercado de trabalho. Quanto à entrada no Brasil, um refugiado sírio entrega o passaporte e uma fotografia no Consulado, conseguindo, assim, obter o visto. Que país faz isto? Obrigado, Brasil.

 

Pergunta: Qual a opinião dos refugiados sírios sobre o Brasil? Eles se sentem acolhidos?

Resposta: Sim. Eles têm problemas, mas graças a Deus podem estudar, podem ter todos os documentos e se eles venderem a casa na Síria podem abrir uma pequena empresa aqui. Os sírios têm dificuldades também com o estilo de vida. O povo aqui tem muita disciplina, é um povo tranquilo, feliz, e o nosso povo é agitado, está fervendo. O povo brasileiro respeita muito as leis, as filas, ninguém buzina nas ruas, não joga nada nas ruas. Os sírios também têm dificuldades com a comida, com a cultura, que é diferente. A cultura de toda a América Latina não tem os tempos verbais do passado – passado é memória – e não tem futuro, por causa dos indígenas. Nosso povo vai 48 horas para a praia e tem que ter dinheiro, colocar tudo na garagem, roupa, remédios, comida e leva para 2 dias coisas suficientes para 10 dias. O brasileiro pode não ter nada e vai uma semana para a praia. São férias e tem que aproveitar, aproveita o dia. O nosso povo ganha 10, esconde 5. É outra cultura.

 

Pergunta: Qual o futuro da Síria?

Resposta: Se deixarem a Síria em paz, se fecharem as torneiras do dinheiro e das armas, os sírios podem reconstruir a Síria em um ano. A Síria volta para a vida em um ano. O Governo está muito forte nas cidades que têm a presença do Governo. Nos prédios destruídos por bombas, em um dia o Governo avisa que abriu esses serviços noutro local. O Governo ainda está controlando o país. Há um mês, o Governo decidiu que 20.000 trabalhadores se tornassem trabalhadores com salário fixo. Se fecharem a torneira do terrorismo a Síria precisa de um ano para se recuperar. Muitos sírios vão voltar. 

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Imagem (FonteFoto de Marli de Barros Diaz):

Roytes Free para o CEIRI.

About Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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  • liz

    muito boa materia