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Eleições na Caxemira: altos índices de abstenções e aumento da violência na região

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No último dia 9 de abril, eleições foram realizadas em Srinagar, uma das capitais do estado de Jammu e Caxemira, para eleger seu representante na Câmera Baixa do Parlamento Indiano, a Lok Sabha[1]. A maior surpresa dessa eleição específica, porém, não foi o resultado das eleições, que determinaram uma mudança no partido que representa Srinagar na Lok Sabha, passando do People’s Democratic Party, partido da atual Ministra Chefe de Jammu e Caxemira, Mehbooba Mufti, para o National Conference, partido de oposição. A surpresa foi que apenas 7,14% dos eleitores votaram e que das eleições emergiu uma nova onda de violência no estado, levando à morte de oito manifestantes e a ferimentos em centenas de indianos, tanto entre os que protestavam como entre os policiais.

A Caxemira é o palco central do conflito entre a Índia e o Paquistão desde a independência dos países, quando o então governador da região, que é habitada majoritariamente por muçulmanos, escolheu se juntar ao Estado indiano. Desde aquele momento, ambos os Estados lutam por um território que, como afirmam Metcalf e Metcalf (2006, p. 124)[2], não possui importância econômica ou estratégica, mas é fundamental para a identidade nacional de ambos os países. Guerras convencionais foram travadas ao longo da metade do século XX, mas, recentemente, o que caracteriza o conflito na área é a guerra irregular, com grupos separatistas, que, de acordo com o Governo indiano, são inflamados e financiados pelo Paquistão, organizando protestos e atirando pedras na polícia e exército indianos.

As diversas interpretações sobre o que está acontecendo na Índia, tanto em relação à votação quanto à espiral de violência, demonstram os diferentes grupos e interesses que permeiam a política indiana. Parte da mídia interpreta o alto grau de abstenção e os protestos como uma mensagem clara da população da Caxemira de desilusão com as instituições política indianas. O ex-Ministro Chefe de Jammu e Caxemira, Omar Abdullah, do partido National Conference, em entrevista para o Hindustan Times, concluiu que, devido a esse cenário de descontentamento e instabilidade da região, Mehbooba Mufti deve renunciar ao seu cargo. Outra interpretação para o que está acontecendo é apresentada pelo Governo e pelo Exército indianos, afirmando que os eleitores, apesar de pretenderem ir às votações, foram impedidos pela violência das ruas, originada por grupos terroristas financiados pelo Governo paquistanês.

A falta de estratégias concretas para trazer a paz a uma área violenta e instável há décadas e o uso excessivo de força pela política indiana, que amarrou um manifestante em seu veículo para evitar o ataque a sua frota semana passada, vão ao encontro da primeira narrativa. O fato de a morte do líder do Hizb-ul-Mujahideen, principal grupo separatista da Caxemira e de ideologia pró-Paquistão, ter levado mais de 300 mil pessoas às ruas em luto em julho do ano passado (2016), porém, é um meio de conectar ambas as interpretações e começar a entender o que está acontecendo na região. A insatisfação com o descaso do Governo central em lidar com a questão da Caxemira pode estar levando os indianos daquele território a procurar outras alternativas. Sendo a área, porém, central para o orgulho e nacionalismo indianos, o cenário futuro aponta para a continuidade da instabilidade e, consequentemente, para o aumento das tensões entre Índia e Paquistão.

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:                                              

[1] Ocorrem eleições fora de época, chamadas na Índia de bypolls, pois, de acordo com a Constituição indiana, quando um membro do Parlamento abdica de seu cargo, devem ser feitas eleições para substitui-lo.

[2] METCALF, B. D.; METCALF, T. R. A Concise History of Modern India. Second Edition. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

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Imagem 1 Região da Caxemira” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6f/Kaschmir_umstrittene_Gebiete-pt.svg/862px-Kaschmir_umstrittene_Gebiete-pt.svg.png

Imagem 2Mehbooba Mufti, MinistraChefe do Estado de Jammu e Caxemira” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mehbooba_Mufti.jpg

Imagem 3Protestos na Caxemira de Julho de 2016” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=kashmir+violence&title=Special:Search&profile=default&fulltext=1&uselang=pt-br&searchToken=3r2zi8yleg10tct048y0lqxkn#/media/File:Kashmir_2016.png

About Livi Gerbase - Colaboradora Voluntária

Mestranda em Economia Política Internacional pela UFRJ e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS. Ex-pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos. Atualmente é estagiária do the South-South Exchange Programme for the Research on the History of Development (SEPHIS). Se interessa por assuntos relacionados aos países em desenvolvimento e recentemente tem focado no sistema financeiro internacional.

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