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As regiões da Eurásia e do Oceano Pacífico como Zona de Influência da China

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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump em relação a uma postura protecionista dos Estados Unidos nos assuntos da política internacional tem suscitado o debate acerca do papel que a China terá na estruturação da ordem global. A postura do líder chinês Xi Jinping na Conferência Econômica Global de Davos, em janeiro (2017), demonstra o compromisso do seu país com o aprofundamento da globalização e de um ambiente global que estimule a conectividade entre as nações, a cooperação para ganhos mútuos (win-win) e a continuidade dos altos fluxos de comércio e investimentos. Neste sentido, a retirada dos Estados Unidos em relação às negociações sobre a Parceria Transpacífico (TPP)* se tornou a primeira grande vitória de Xi Jinping no âmbito da economia internacional neste ano (2017), sem que precisasse realizar qualquer ação direta. Paralelamente a isto, avança a iniciativa chinesa de estabelecer a Nova Rota da Seda, um plano de construção de obras de infraestrutura através do território da Eurásia, englobando mais de 60 países.

Tal postura trouxe a questão da expansão da zona de influência chinesa em duas regiões de grande importância estratégica: a massa continental da Eurásia e o leste asiático, que compreende a zona do Oceano Pacífico.

Em relação a Eurásia, afirma-se que a potência que seja capaz de exercer influência sobre este território, teria a maior capacidade de projeção de poder a nível global. O exercício de poder terrestre sobre esta região tem um potencial de produzir um repositório de recursos e bens que, se associado a um poder marítimo, acarretará possibilidades de alteração da balança de poder do sistema internacional, pois permitirá desenvolver meios para tentar controlar as regiões que tem em seus territórios áreas costeiras, produzindo um poder anfíbio, capaz de enfrentar o poder marítimo das potências insulares, nos primórdios a Grã-Bretanha e posteriormente os EUA.   A Eurásia se destaca pela abundância de recursos naturais e energéticos, além da importância logística e geoestratégica. De forma aproximada, é possível afirmar que o seu território se estende desde a Europa Oriental até os limites da Ásia Oriental; de norte a sul seus limites compreendem desde a linha do Círculo Ártico até os desertos e montanhas da Ásia Meridional. A Eurásia possui massas aquáticas de importância estratégica e comercial, tais como o Mar Báltico, o Mar Negro, o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico.

O sudoeste da Eurásia, partindo dos limites entre o território Indiano e Chinês, se estendendo pela Ásia Central e Meridional e chegando até o Irã constitui parte importante dos corredores de articulação econômica que a China pretende avançar através do componente terrestre da Nova Rota da Seda. Denominam-se de Estados pivôs os territórios que são essenciais para que determinada potência consiga exercer sua influência em determinada zona estratégica. Estes possuem concomitantemente algum tipo de vulnerabilidade, normalmente militar ou mesmo econômica, que os tornam mais suscetíveis de serem atraídos pela força gravitacional emanada pela influência política de potências maiores.

Na Eurásia, alguns dos mais importantes Estados Pivôs são o Irã, o Paquistão e o Afeganistão. O Irã é um país rico em petróleo, controla metade das margens do Golfo Pérsico, tem acesso ao Mar Cáspio. A cooperação econômica e militar com o Paquistão pode servir como forma de balanceamento em relação à Índia, tentando impedir a preponderância geoestratégica deste país na Ásia Meridional. Além disso, o Paquistão é um país de grande população e que notadamente possui armamento nuclear. O Afeganistão é um país extremamente instável seja no aspecto político, seja no aspecto econômico e sua importância para a ação chinesa na região reside no fato de que a influência sobre o Afeganistão pode facilitar o acesso tanto ao Irã, quanto ao Paquistão. Além disto, sob a perspectiva chinesa, o Afeganistão e o Paquistão são aliados que possibilitam o acesso da China aos recursos naturais da Ásia Central.

No Oceano Pacífico, a situação é um pouco mais complexa, visto que os Estados Unidos possuem uma rede de alianças históricas que incluem o Japão, a Coréia do Sul, o Vietnã, as Filipinas e a Austrália, além de uma constelação de bases militares. Mais importante que isto, a permanência da independência de Taiwan como aliado dos Estados Unidos é um problema estratégico para os interesses vitais do Estado chinês. O Mar do Sul da China é uma zona de vulnerabilidade na qual o país tentará exercer maior controle, devido a grande importância representada para o escoamento de produtos e acesso a recursos naturais. Disputas por territórios ricos em petróleo e gás natural na região se limitaram até o presente momento à esfera judicial, envolvendo a China e reivindicações do Japão, de Taiwan, do Vietnã, da Malásia, de Brunei e das Filipinas. Os Estados Pivôs nesta região são justamente a Coréia do Sul e as Filipinas, países com os quais os chineses ainda não possuem influência significativa, devido a preponderância do poder norte-americano.

O posicionamento da China na Eurásia cresce em importância, na medida em que avançam os tratados de cooperação com países da região.  Os projetos de infraestrutura da Nova Rota da Seda e as instituições ligadas a esta iniciativa são a principal contribuição da China para o bem público global durante o seu processo de ascensão. Qualquer estruturação do sistema internacional dependerá da negociação entre a influência dos Estados Unidos e a emergência chinesa. Neste sentido, a China vem consolidando seu poder terrestre voltado para a Eurásia, através de uma diplomacia realizada por meio de fluxos comerciais e de investimentos, além de procurar aumentar seu poder marítimo no Oceano Pacífico como forma de dissuasão de possíveis ameaças aos seus interesses estratégicos.

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

* O TPP consiste em um acordo de liberalização comercial elaborado no período do Governo de Barack Obama, envolvendo os países localizados no território do Oceano Pacífico e excluindo a China.

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Imagem 1 Mapa regional da Eurásia” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/30/Eurasia_(orthographic_projection).svg/2000px-Eurasia_(orthographic_projection).svg.png

Imagem 2 Transpacific Partnership” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7e/What_Is_TPP.jpg

Imagem 3 Mapa regional da Ásia Oriental ” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4e/1-12_East_Asia_Green-Grey.png/1280px-1-12_East_Asia_Green-Grey.png

Imagem 4 Xi Jinping, 7º Presidente da República Popular da China, durante a cúpula dos BRICS no ano de 2015” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fa/Xi_Jinping,_BRICS_summit_2015_01.jpg

About Ricardo Kotz - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atuando na linha de Economia Política Internacional. Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2015.

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