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[:pt]Os Aspectos Globais da Guerra na Síria[:]

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Perto de completar seis anos, a Guerra na Síria, que começou na sequência da Primavera Árabe, a partir de protestos da população contra o Presidente Bashar al-Assad por conta do descontentamento com o alto índice de desemprego, corrupção,  falta de liberdade política e repressão, evoluiu para uma das guerras mais sangrentas da atualidade. O levante que, inicialmente, foi denominado de Guerra Civil, em pouco tempo perdeu as características deste tipo de conflito. Na medida em que a Guerra passou a ser polarizada por países e grupos estrangeiros ela ampliou-se e atingiu uma dimensão complexa, formada por camadas distintas e alicerçada pelos interesses de atores externos. A atuação de milícias não nacionais e de potências regionais e globais criou uma guerra dentro da guerra e, simultaneamente, quebrou o elo que, de certo modo, unia os sírios em torno da luta por mudanças internas. Hoje, os objetivos primários que conduziram à insurreição na Síria estão praticamente esquecidos e muitos tentam, apenas, salvar as suas vidas ante a violência na disputa pelo domínio de áreas em conflito entre as diferentes facções presentes no território sírio, incluindo os fundamentalistas islâmicos e estrangeiros que fazem a guerra por procuração.

Na atualidade, não é correto afirmar que existe uma Guerra Civil na Síria. Deste modo, a Guerra Civil é apenas uma dentre as várias facetas do conflito que compõem aquele enfrentamento armado. Porém, este fato não significa que o regime de Bashar al-Assad esteja isento da responsabilidade de contribuir para o aumento da violência. O confronto, considerado por vários analistas como uma Guerra contra o povo sírio, teve origem na política de al-Assad que, atualmente, com o apoio de seus aliados, tem acelerado a agressividade contra os seus compatriotas. Segundo a Rede Síria para os Direitos Humanos, as forças do Governo são responsáveis por “matar 95% das vítimas sírias” e, além disso, controlam as Forças Armadas, têm a posse de armas de guerra tais como blindados, aviões, bombas barril[1], mantêm o controle sobre o Serviço de Inteligência e militar e usaram armas químicas contra o seu próprio povo. Os 185.180 Km2 do território da Síria transformaram-se no bastião dos insurgentes islâmicos, mas também das grandes potências regionais e ocidentais que financiam o Governo e a oposição, contribuindo para a intensificação dos embates.

A atmosfera que rodeia a Síria converge para o reencontro das rivalidades e de aliados do tempo da Guerra Fria, evidenciando a continuidade da luta geopolítica entre os centros de poder e de decisão global. Neste contexto, os laços tradicionais existentes naquela época se revelam na atualidade, mostrando que o fim da União Soviética e as mudanças políticas ocorridas no mundo não foram capazes de destruí-los, mas apenas transferi-los. Isto pode ser verificado entre a Rússia e a Síria, cujos vínculos existentes datam do período da União Soviética. É de conhecimento geral que a Rússia é fornecedora de armas e de táticas militares para o país árabe mas, para além disso, ambos partilham interesses comuns no que diz respeito às questões econômicas, estratégicas e políticas, levando em consideração que defendem “uma ordem mundial multipolar que enfatiza o primado da soberania nacional”. No entanto, os EUA, outro protagonista do mundo bipolar e a maior superpotência do planeta, lideram a coalizão de países que se opõe ao regime de Bashar al-Assad e ao Estado Islâmico e apoia os rebeldes moderados, ao mesmo tempo em que evita atacar as forças do regime. Porém, no presente, já não se acredita mais na existência de grupos moderados no conflito sírio, uma vez que todos atuam de maneira brutal, em causa própria.

No complexo jogo político, o Irã, que é o aliado mais próximo de al-Assad, tenta salvar o seu “principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia” para o Hezbollah, no Líbano. Paralelamente a isto, o país dos Aiatolás rivaliza com as potências do Golfo Pérsico, de orientação sunita, nomeadamente com a Arábia Saudita que se opõe ao Governo de al-Assad e procura neutralizar a tentativa iraniana de domínio no Oriente Médio. Isto se tornou para a Arábia Saudita um empreendimento caro, pois, de acordo com informações, a petromonarquia saudita é um dos principais financiadores de radicais sunitas na Síria e o Qatar, outro país do Golfo Pérsico, não fica atrás. A Turquia é mais uma importante potência regional envolvida na Guerra na Síria. Os turcos, embora partilhem pontos comuns com a coalizão internacional e estejam empenhados em combater al-Assad, têm interesses exclusivos que visam atender os objetivos traçados no âmbito da sua política interna como, por exemplo, o combate à minoria curda síria, com a finalidade de evitar que obtenham sucesso na busca pela autonomia na Síria, o que daria fôlego ao ideal separatista dentro do território turco. Desde o início, a Turquia apoiou os grupos rebeldes com a intenção de derrubar Bashar al-Assad. Esta ação, conforme afirmou Mustafa Göktepe, Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia, faria da Turquia “o único país com estabilidade política e social na região, além de chegar até Damasco e rezar na imponente e importante mesquita dos Omíadas. Isso tem um significado religioso e dá sinais sobre o novo Califa dos muçulmanos”. 

A Guerra na Síria se desenvolveu e segue o seu processo de evolução, em conformidade com os interesses geopolíticos e econômicos das potências externas. Isto, somado a outros elementos, nos permite assegurar que não se trata de uma Guerra Civil, mas de um conflito de caráter internacional, na medida em que “as armas são estrangeiras, os combatentes são estrangeiros e a agenda é estrangeira”. Há um esforço por parte dos atores estrangeiros que, direta ou indiretamente se encontram no teatro de operações, para convencerem a população mundial que aquele conflito é de natureza civil e, até agora, têm sido bem sucedidos no fator persuasão, pois esta é uma guerra distante, não há vítimas de bombardeamentos, batalhas e refugiados nacionais. Mas as análises confirmam que a denominação de Guerra Civil na Síria é um “termo equivocado, tanto quanto chamar aqueles que tomam as armas de ‘oposição’”, é um mito.

Neste sentido, as negociações de tréguas e de paz são infrutíferas, porque os acordos não são assinados por todas as facções armadas, como o Estado Islâmico, a al-Qaeda, a Frente da Conquista do Levante, a antiga Frente al-Nusra, e tantos outros grupos insurgentes que têm uma agenda própria ou de seus patrocinadores. Compreender o que realmente está ocorrendo na Síria é fundamental para se chegar a uma solução de paz, no futuro, devolvendo a tranquilidade ao povo sírio evitando, ainda, que novas frentes de batalha sejam abertas em áreas geoestratégica e geopolítica importantes, em alguma outra parte do planeta.

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Imagem 1Bairro Karm alJabal, Aleppo, 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Aleppo_(2012%E2%80%9316)#/media/File:Syria-_two_years_of_tragedy_(8642756918).jpg

Imagem 2Navios de guerra americanos USS Arleigh Burke (DDG51) e USS Philippine Sea (CG-58) disparando mísseis BGM109 Tomahawk contra posições do Estado Islâmico na Síria, em 23 de setembro de 2014” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Tomahawk_Missile_fired_from_US_Destroyers.jpg

Imagem 3O expresidente da Rússia, Dmitry Medvedev, com o presidente da Síria, Bashar alAssad” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Relações_entre_Rússia_e_S%C3%ADria

Imagem 4Brasão de armas da Arábia Saudita” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arábia_Saudita#/media/File:Coat_of_arms_of_Saudi_Arabia.svg

Imagem 5F16 da Força Aérea, fabricado pela TAI” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Turquia#/media/File:Turkish_Air_Force_(F-16C_Falcon).jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Bomba barril: “São barris velhos de petróleo cheios de todo tipo de explosivos, pregos, gasolina e até cloro ou outros agentes químicos. Jogadas de grandes alturas sobre áreas densamente povoadas, elas são toscas, cruéis e indiscriminadas”.

Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/artigo-carnificina-causada-pelas-bombas-de-barril-na-siria-15565247

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About Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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