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[:pt]Os alinhamentos políticos para 2017 e os ambientes críticos para os interesses estadunidenses[:]

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Nestes primeiros dias da Presidência de Donald Trump, observadores internacionais apontam que resultados obtidos com a sua ascensão à Presidência dos Estados Unidos trazem para o ambiente internacional a confirmação de uma tendência crescente do fenômeno nacionalista pelo mundo (que alguns especialista preferem apontar como populista), e uma guinada alheia à globalização, algo que poderá levar ao fim da Pax Americana, ou seja, ao fim da ordem internacional de livre troca e segurança compartilhada que os EUA e seus aliados construíram após a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com especialistas consultados, diante das incertezas que a possível política externa prevista para o atual mandato tem trazido, o novo Governo estadunidense deverá alinhar os interesses do país a esta doutrina de Relações Exteriores adotada pela administração Trump: mais isolacionista, unilateral, protecionista no âmbito geopolítico e excludente à liberalização comercial, à mobilidade do capital e às políticas de bem-estar social que resultem em gastos públicos que sobrecarreguem o orçamento, ou que extrapolem a disposição orçamentária, obrigando a endividamentos comprometedores do Estado.

Neste quadro, atores cujas ações dos últimos oitos anos foram bastante estratégicas deverão ter acompanhamento próximo para estar em concordância com os novos preceitos das Relações Exteriores dos EUA.

Dentro desse panorama, as atenções e preocupações políticas, diplomáticas e militares poderão estar centradas em:

  1. Síria e Iraque: Os Estados Unidos e a coalizão internacional buscam afrouxar o controle do Estado Islâmico e estabelecer um Iraque estável. Contudo, a preocupação é de que o conflito conduza à dissolução do Iraque e que a tensão sectária aflija a região nos próximos anos, ao passo de expandir para um conflito de poder entre os vários grupos internacionais que contemplam interesse nos dois atores (Rússia, Turquia, Irã, Arábia Saudita, por exemplo). Atualmente, estima-se que a região tem seis mil homens das forças norte-americanas estacionados no Iraque, que já produziram, em média, 7.248 ataques aéreos a alvos do Estado Islâmico, os quais acarretaram, desde 2014, em 3,2 milhões de deslocados;
  2. Turquia: Sob tensão econômica e com alianças fracas, a Turquia enfrenta o agravamento dos conflitos na vizinha Síria e no Iraque, bem como o aprofundamento nas questões envoltas ao Partidos dos Trabalhadores do Curdistão (PKK – Parti Karkerani Kurdistan);
  3. Iêmen: Considerado um dos países mais pobres do mundo árabe, o conflito com a Arábia Saudita e seus aliados já contabiliza 4.000 civis mortos, com milhares de pessoas à beira da fome e sofrendo com o bloqueio econômico. Um cessar-fogo abrangente e um acordo político é apontado como sendo de extrema urgência para frear a crise humanitária que assola o país;
  4. Afeganistão: As forças militares dos Estados Unidos mantêm aproximadamente 8.400 homens estacionados em bases pelo país, com apoio de outros 12.930 soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), porém, mesmo com esse efetivo, a instabilidade ameaça à paz e a segurança internacional. Para a nova administração em Washington é vital preservar a segurança e os muitos ganhos políticos e econômicos conquistados desde 2001, pois, com um eventual ressurgimento do Taleban, isso poderia fazer com que o país se torne novamente um “porto seguro” para insurgentes e terroristas. Em complemento a instabilidade interna, poderiam surgir ramificações regionais maiores, uma vez que Paquistão, Índia, Irã e Rússia competem por influência em Cabul;
  5. Líbia: Há uma preocupação com a fratura permanente da Líbia, já que os vários grupos rebeldes e milícias insurgentes, que de acordo com fontes de inteligência são estimados entre 5.000 a 8.000 mil combatentes, tentaram dividir o país entre linhas políticas e tribais. Dentro desse quadro é incerto se o novo Governo de Unidade será capaz de reunir as facções em conflito e restabelecer a unidade na Líbia e reconduzir os aproximados 450 mil deslocados que fugiram das áreas de conflito desde a queda de Muammar Gadaffi;
  6. Myanmar: Naypyidaw era parte do plano de política externa do ex-presidente Barack Obama denominado “Pivot para Ásia. Contudo, não se sabe ao certo qual será o modelo de diplomacia adotado por Trump para a nação asiática. Por enquanto, o novo governo civil, liderado pelo prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, não consegue estabilizar os surtos de violência ocorridos em centros urbanos e comerciais próximos da fronteira com a China, resultando em uma nova escalada militar. Um processo de paz está em curso para a próxima Conferência Panglong, prevista para fevereiro, próximo, cujo enfoque será dado com todos os principais grupos étnicos armados do país;
  7. México: Um alto nível de tensão entre Estados Unidos e México pode se estabelecer. As promessas de construção de um muro na fronteira e a deportação de milhões de imigrantes indocumentados, bem como renegociação dos termos do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês) conjectura o fim de uma cooperação tradicional entre os dois vizinhos;
  8. República Popular Democrática da Coréia do Norte: A Coréia do Norte é uma potência nuclear com uma relação complexa com a China, sendo assim, impedir uma guerra na Península Coreana e um colapso interno da Coréia do Norte são interesses de segurança nacional dos EUA, que mantém 28.500 soldados em bases na vizinha Coréia do Sul. Pequenas provocações militares e cibernéticas por parte de Pyongyang representam riscos significativos, pois cada incidente traz consigo o potencial de escalada das tensões;
  9. Mar da China Oriental: O aumento dos sentimentos nacionalistas e a crescente desconfiança política aumentam o potencial de conflito na região. Embora a disputa por parte de chineses e japoneses acerca das Ilhas Senkaku/Diaoyu, bem como de outras 81 mil milhas em disputa marítima, compondo mais oito ilhas e 200 milhões de barris de petróleo, pode fazer com que uma ação não autorizada de comandantes locais acarrete na escalada involuntária de hostilidades. Devido a compromissos e tratados com o Japão, um confronto militar poderia envolver os Estados Unidos e, para preservar as relações com a China e continuar a cooperação em várias questões, Washington tem interesse em manter sempre baixo os níveis de tensão na região;
  10. Mar do Sul da China (Mar da China Meridional): Nessa região está estimada a existência de aproximadamente onze bilhões de barris de petróleo, mais 190 trilhões de metros cúbicos de gás natural, além de um total de US$ 5,3 trilhões em comércio anual, circulando neste lado do hemisfério. Para tanto, os Estados Unidos buscam manter seus importantes interesses em assegurar a liberdade de navegação e as linhas de comunicação marítima, por meio de um código de conduta vinculativo e outras medidas de confiança. É também visto como papel de Washington a prevenção contra uma escalada militar resultante de disputa territorial, no entanto, o Tratado de Defesa de Washington-Manila poderia implicar em um conflito China-Filipinas nas imediações de Reed Bank*, além de uma disputa entre China e Vietnã sobre reivindicações territoriais, que poderia ameaçar os interesses militares e comercias dos Estados Unidos.

Para um quadro bastante complexo para a nova administração Trump, em que todos os cenários expostos possuem um diálogo profundo entre diversos atores, a adoção de uma política diplomática pautada no hard power, tal como se conjectura coloca no horizonte a possibilidade da eclosão de conflitos de larga escala na agenda das Relações Internacionais dos próximos anos. Sendo assim, os especialistas apontam que será necessária a continuidade da cooperação e do multilateralismo para evitar tensões prolongadas.

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* Reed Bank: É uma grande mesa no Mar da China Meridional, com uma área de 8.866 km² e profundidades entre 9 e 45 metros. Faz parte do arquipélago das Ilhas Spratly. Embora o Tribunal Permanente de Arbitragem tenha decidido em 2016 que a área está dentro da Zona Econômica Exclusiva das Filipinas, os direitos econômicos sobre a área continuam a ser contestados – principalmente pela República Popular da China.

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Imagem 1Donald Trump Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 2 Síria Cidade antiga de Palmira” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADria#/media/File:Temple_of_Bel,_Palmyra_15.jpg

Imagem 3 Turquia Outdoor de campanha de Recep Tayyip Erdoğan em rua de Istambul, 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Recep_Tayyip_Erdo%C4%9Fan#/media/File:RecebTayyibErdo%C4%9FanPoster.JPG

Imagem 4 Líbia – Manifestações contra Muammar alGaddafi em Bayda, 22 de julho de 2011 ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADbia#/media/File:Demonstration_in_Bayda_(Libya,_2011-07-22).jpg

Imagem 5 Reivindicações territoriais no mar da China Meridional” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Disputas_territoriais_no_mar_da_China_Meridional#/media/File:South_China_Sea_claims_map.jpg

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About Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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