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[:pt]ONU questiona comprometimento dos EUA na busca por solução política na Síria[:]

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Durante encontro que ocorreu em Genebra, na Suíça, em meados de fevereiro deste ano (2017), Staffan de Mistura, enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Síria, questionou o grau de comprometimento dos Estados Unidos da América (EUA) na busca por uma solução política para o conflito sírio. Depois de três sessões em 2016, que não resultaram em nenhum avanço, no dia 22 de fevereiro de 2017, as delegações rivais sírias se reuniram na Suíça, onde iniciou-se uma nova rodada de negociações com mediação da ONU, a fim de se encontrar uma solução pacífica para a guerra que perdura há 6 anos no país.

Em março de 2011, eclodia em Da’ra, na região sul da Síria, manifestações que pediam reformas políticas, ações para encerrar o estado de emergência e medidas contra a corrupção no país. A demanda pela abertura do regime, no entanto, teve início no começo dos 2000, quando Bashar al-Assad assumiu a Presidência da Síria, após a morte de seu pai, e teve a legitimidade outorgada pelo partido Baas. Os protestos pela saída de Assad adotaram um caráter violento depois da prisão e tortura de adolescentes que pintaram mensagens em apoio à derrubada do Governo. Assim, ao passo que as manifestações assumiam esse novo caráter e se alastravam pelo norte do país, a represália promovida pelo Exército também se tornava mais violenta.

Logo, o país foi se encaminhando para uma guerra civil: brigadas de rebeldes foram formadas a fim de fazer frente ao Governo e a luta pelo controle de cidades e regiões estratégicas passou a ser prioridade. Em pouco tempo, a situação da crise adquiria enorme complexidade e já não era formada apenas por aqueles que apoiavam ou se opunham ao Governo Assad, mas também era forjada por grupos sectários, entre eles sunitas e xiitas. Tal cenário permitiu a ascensão de grupos jihadistas que expandiram seu controle não apenas na Síria, mas nos países vizinhos. Além disso, o agravamento do conflito levou à guerra proxy (guerra por procuração), envolvendo, assim, o apoio e a ação de países regionais e globais em um dos lados do conflito.

O conflito sírio deixou mais de 16 milhões de deslocados e milhares de mortos. Em julho de 2015, Ban Ki-moon, Secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que a guerra civil síria havia deixado mais de 250 mil mortos.  Dados do Centro Sírio de Pesquisa Política, divulgados em fevereiro de 2016, apontam que o número de mortos no conflito passava dos 470 mil, segundo divulgado no The Guardian. Mais recentemente, em setembro do ano passado (2016), o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou que o número de vítimas chegava a 300 mil.

Em discurso de boas-vindas, Staffan de Mistura ressaltou às delegações que um novo fracasso trará consequências, ou seja, mais mortes, mais sofrimento, mais atrocidades, mais terrorismo e mais refugiados. Segundo o enviado da ONU, não há uma solução militar para crise síria, somente uma solução política. As responsabilidades sobre o agravamento da guerra síria também foi ressaltada por Ban Ki-moon, durante o encontro de emergência do Conselho de Segurança da ONU, ocorrido no último dia 13 de dezembro. Para o secretário-geral da ONU, “a história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Aleppo nossa solidariedade nesse momento”.

Já Paulo Sérgio Pinheiro, diplomata brasileiro e Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria na ONU, afirmou, conforme destaca o DW, que os dois lados desrespeitaram tratados internacionais e os países que apoiam o conflito também cometeram crime de guerra, e são responsáveis pela morte e deslocamento de milhares de pessoas. Staffan de Mistura pediu a implementação da Resolução 2254 do Conselho de Segurança, que prevê o engajamento dos dois lados em processo formal de negociação para uma transição política.

O enviado da ONU se reuniu com representantes da Oposição e do Regime para definir uma nova agenda de negociações. O Alto Comitê de Negociação (HNC), liderado por Nasr al-Hariri, que representa a Oposição, declarou que desejava estabelecer negociações diretas com o regime, cuja delegação é chefiada por Bashar Jaafari, diferentemente do que ocorreu nas negociações de abril de 2016, quando Mistura atuou como interlocutor. Um dos principais pontos de divergência entre os dois grupos refere-se à permanência de Assad no poder. No entanto, cabe pontuar que a situação alterou-se consideravelmente com relação às negociações do ano anterior, pois o regime de Assad retomou o controle sobre parte da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos rebeldes. 

Ainda em fevereiro deste ano (2017), durante a Conferência sobre Segurança, ocorrida em Munique, Alemanha, Staffan de Mistura havia chamado a atenção para o comprometimento dos países envolvidos no conflito, particularmente os Estados Unidos. O enviado das Nações Unidas chegou a questionar: “Onde estão os Estados Unidos em tudo isso? Não posso dizer, porque não sei. Para Mistura, conforme ressalta a ANGOP, é compreensível as três prioridades do Governo estadunidense na região: combater o Estado Islâmico, limitar a influência de certo ator regional (Irã) e, ainda, não colocar em perigo seus tradicionais aliados na área, mas ele enfatiza que somente se alcançará o primeiro objetivo quando se acordar uma solução política crível.

Compete lembrar, entretanto, que, no começo de 2014, os Estados Unidos, a Rússia e a ONU tentaram implementar o Comunicado de Genebra de 2012, um Acordo com apoio internacional para a criação de um Governo de Transição na Síria. Esse Acordo tinha como base o consentimento mútuo das partes, mas que acabou fracassando. Em meados de 2014, os EUA entraram no conflito, apoiando os rebeldes moderados, com suporte de uma Coalização Internacional composta por 60 países. As Forças da Coalizão já realizaram diversos ataques aéreos, tanto na Síria quanto no Iraque.

A entrada dos EUA e da Rússia no conflito sírio também aumentaram as tensões. Haja vista que Rússia e Irã apoiam o regime Assad, já a força da Coalizão buscava atacar o Estado Islâmico, e também enfraquecer o Governo. Além disso, a atuação da Arábia Saudita e Turquia mantém ligações com grupos rebeldes oposicionistas. Houve diversas tentativas de cessar-fogo e de estabelecer soluções políticas, muitas vezes lideradas pelos Estados Unidos e pela Rússia, mas nada de concreto resultou dessas interações. Embora, cabe pontuar, que o último cessar-fogo foi acordado entre Turquia e Rússia, em dezembro de 2016.

O novo Presidente americano, Donald Trump, publicou um comunicado no dia 28 de janeiro, pelo qual dava ao Pentágono trinta dias para elaborar um plano para acelerar a luta contra o Estado Islâmico. O combate contra o grupo extremista, até o presente momento, parece ser o eixo central da atuação dos EUA na Síria sob o comando de Trump, que se diferencia da posição da administração de Barack Obama, que, além do Estado Islâmico, também tinha como foco a saída de Assad. Em relação ao posicionamento dos EUA, Rex Tillerson, Secretário de Estado Norte-Americano, afirmou apenas que o Governo Trump apoiará uma solução pacífica, pois uma solução militar isolada não conduzirá à paz.

Durante o período que antecedeu às negociações, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, destacou a importância de soluções políticas para o conflito, soluções internas, e assinalou que o mundo atual vive uma crescente falta de confiança. Essa falta de confiança e o aumento das tensões mais uma vez refletiram-se sobre as negociações em torno do conflito, que novamente permaneceram no impasse e não resultaram em ações concretas. Conforme ressaltou Mistura, o conflito sírio lançou uma grande sombra sobre toda a região e a ordem internacional e, ao que parece, perdurará ainda por um longo tempo.

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Imagem 1Staffan de Mistura em setembro de 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Staffan_de_Mistura#/media/File:Staffan_de_Mistura_September_2015_(21108901363).jpg

Imagem 2 Blindados do regime Assad destruídos na cidade de Azaz, no norte da Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Azaz,_Syria.jpg

Imagem 3 Paulo Sergio Pinheiro” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_S%C3%A9rgio_Pinheiro#/media/File:Paulo_Sergio_Pinheiro,_Comisionado_2004-2011_(5136492937).jpg

Imagem 4 Um caça americano F18 Super Hornet decolando do USS Dwight D. Eisenhower para executar missões na Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Interven%C3%A7%C3%A3o_militar_na_S%C3%ADria#/media/File:An_F-A-18E_Super_Hornet_launches_from_USS_Dwight_D._Eisenhower._(27859769842).jpg

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About Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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