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[:pt]Crescimento na Europa: economia e tensões em alta[:]

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Desde o início da Crise Financeira Internacional, em 2008, este ano é o primeiro em que todos os países membros da União Europeia estão vendo sua economia crescer e deve se manter assim até 2018. Apesar da boa notícia, é necessário avaliar os fatores que promovem esse crescimento, bem como outros elementos que podem modificar o cenário regional nos próximos meses.

A taxa média de crescimento do Bloco Europeu, em 2016, foi de aproximadamente 1,9%, porém as fortes assimetrias que existem dentro do continente são refletidas nas taxas desiguais, havendo países que registram números superiores à média da União Europeia, tais como Espanha (3,2%) ou Irlanda (4,3%), e outros com índices inferiores, como a Itália (0,9%), ou a França (1,2%).

O crescimento da União Europeia coloca um ponto final a uma década de turbulências econômicas, porém são muitos os fatores que ainda podem afetar o andamento da economia da região.

Embora muitas nações registrem taxas de crescimento positivas, a dívida pública continua muito elevada. Na Espanha, ela supera 98% em relação ao PIB; na Itália mais, de 132%; na França o 93%. Isso que coloca em evidência o delicado equilíbrio das contas europeias.

O desemprego e a redução das prestações sociais são outros pontos a serem observados, já que os anos de políticas de austeridade minaram o “estado de bem-estar” em diversos países da União,  principalmente os da faixa do mediterrâneo, gerando uma crescente tensão social e problemas de legitimação das ações do Governo, algo que ficou refletido nas diversas eleições que ocorreram na Espanha, na Itália e na Grécia. A Espanha, por exemplo, realizou profundos cortes nos gastos com saúde, segurança pública, iluminação e educação, ainda assim, o Banco Central Europeu continua pressionando para a realização de novos cortes e mesmo o país registrando taxas positivas de crescimento este não é revertido em benefício para a população, mas no saneamento das contas públicas, o que, sem dúvidas, gera fortes tensões sociais e mudanças políticas bruscas.

Os efeitos econômicos da saída do Reino Unido ainda não foram perceptíveis, não havendo um prognóstico claro do impacto do mesmo. Projeções falam de até 1% de perda do PIB do Bloco devido ao impacto no sistema financeiro.

As negociações com outros Blocos e países evolui lentamente, somente as negociações com o Canadá chegaram a um consenso, outras, como as negociações com o Mercosul, seguem, praticamente, paralisadas devido a falta de consenso tanta da Europa, em relação a sua política de subvenção do setor agrícola, como do próprio Mercosul e seu impasse regional.

Os bons resultados econômicos da Europa contrastam com a situação política da região, que se agrava, devido a crescente insatisfação dos cidadãos europeus e das tensões sociais causadas por problemas internos e externos.

O discurso eurocético está aumentando e já participa dos grandes círculos de discussões políticas.  As eleições na França, Holanda e Alemanha servem de termômetro para o futuro da União.

A candidata a Presidência da França, Marine Le Pen, já confirmou diversas vezes suas intenção de realizar um Referendo para a retirada da França da União Europeia e também da OTAN, o mesmo discurso é repetido por partidos de extrema direita em toda Europa, com crescente adesão social.

As nações da Europa já não sentem tanto os benefícios de pertencer ao Bloco. As políticas de austeridade impostas pela União Europeia revelaram a deterioração da soberania dos países em relação a suas políticas econômicas, e o posicionamento frente a questões internacionais, tais como as relações com a Rússia, ou a Crise dos Refugiados, evidenciaram profundas discrepâncias que permaneciam ocultas. Uma grande onda de insatisfação se instaurou na União Europeia, embora todos pareçam ignorar o fato de que pertencer ao Bloco significasse desde o princípio não somente a obtenção dos benefícios, mas também a adesão a uma série de obrigações. O único país que havia negociado um status diferenciado dentro da União Europeia foi o próprio Reino Unido, que deu início a era da “Europe a la Carte” e sua saída do Bloco só fez aumentar a desconfiança dos países membros.

Para a Comunidade Internacional, a situação da União Europeia revela uma série de paradigmas que não podem ser negligenciados.  Por um lado, os problemas que enfrentam o Bloco Europeu são uma evidência da própria evolução da integração regional que muitas regiões emularam em seus continentes (Mercosul, NAFTA, ASEAN etc.) e que, atualmente, serve como ponto de reflexão para a evolução futura desses Blocos. Por outro lado, o crescimento econômico da região revela um lado complexo da economia internacional, já que é cada vez mais evidente que o crescimento da economia de um país ou conjunto de países, não necessariamente significa uma melhoria na condição de vida de seus cidadãos ou em um fortalecimento do pacto social. Se este crescimento se obtém mediante o sacrifício dos serviços públicos e do estado de bem-estar da população, a insatisfação gera uma reação que pode provocar mudanças profundas no sistema de governo, ou nos formuladores de políticas.

A corrida pelo PIB” que pareceu substituir a corrida armamentista gerou um efeito acumulativo do capital em lugar de sua circulação, provocando uma crescente disparidade entre nações ricas e populações cada vez mais pobres. Certo é que nem todos os países registram este efeito. Nações menos desenvolvidas registram uma leve melhoria em suas condições sociais, o que reflete positivamente os dados do sistema internacional, mas, ainda assim, o paradigma do sistema financeiro internacional está sendo cada dia objeto de dúvidas e críticas, e não somente nos círculos acadêmicos, pois também vem sendo refletido nos discursos políticos.

A União Europeia é o epicentro dessa mudança, já que alcançou índices únicos de desenvolvimento social, crescimento econômico entre nações desenvolvidas, integração regional, liberalismo econômico em algumas nações e, agora, tanto os resultados de sua evolução, como também os reflexos de suas assimetrias e mazelas não resolvidas, são colocados à prova durante processos eleitorais, como já aconteceu nas nações do Mediterrâneo e, neste momento, chegam ao coração da União.

De momento é impossível prognosticar com total certeza os caminhos que seguirá o continente europeu, mas, uma coisa é certa, se a Europa mudar, o mundo também mudará, pois, ainda que enfraquecida, é inegável sua influência política, social, cultural e econômica.

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Imagem 1 Bandeira da União Europeia em fragmentação” (Fonte):

http://kaosenlared.net/wp-content/uploads/2017/02/ue-rota-680×365.jpg

Imagem 2 Sede do Banco Central Europeu Nova instalações do BCE (abril de 2014), em FrankfurtOstend” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sede_do_Banco_Central_Europeu

Imagem 3 Serviço Naval Irlandês a resgatar imigrantes de um barco superlotado como parte da Operação Tritão, junho de 2015” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_migratória_na_Europa#/media/File:LE_Eithne_Operation_Triton.jpg

Imagem 4 Imagem em uma Bolsa de Valores, no caso a Bovespa de São Paulo Brasil” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_econômica#/media/File:Sao_Paulo_Stock_Exchange.jpg

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About Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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