1
Posted 21 de janeiro de 2014 by Mario Joplin - Colaborador Voluntário in ANÁLISES DE CONJUNTURA
 
 

Copa do Mundo 2014: os prós e os contras de sediar o megaevento

copa
copa

À medida que o país se aproxima da realização da “Copa do Mundo FIFA 2014”, inúmeras preocupações e graves desafios sociais têm vindo à tona. As manifestações ocorridas em todo o país no ano passado, quando da realização da “Copa das Confederações”, evento teste e preparatório para a “Copa do Mundo 2014”, ainda se fazem bastante presentes na memória da população brasileira, bem como na mídia internacional, haja vista terem sido acentuadamente divulgadas mundo afora. Outrossim, o fato de o ano de 2014 ser de grande importância para o Brasil, visto ser este um ano de eleições presidenciais, torna a conjuntura ainda mais delicada, o que pode ser mais um fator de preocupação para sociedade brasileira, tendo em vista o descontentamento cada vez mais acentuado de grande parte da população com os problemas sociais existentes e o descaso da classe política para com estes. Eis, então, o cenário que o início de 2014 apresenta.

Por outro lado, é sabido que o império do futebol não conhece limites nem fronteiras e, fruto da expansão capitalista inglesa, este se difundiu de forma a contemplar a totalidade do mundo em que vivemos, sendo, por isso, o esporte mais praticado em todo o planeta. Consequentemente, o futebol se torna um excelente produto, de plena aceitação no mercado e capaz de movimentar um montante de capital sem precedentes. Não pairam dúvidas quanto à indústria do futebol ser uma das mais ricas, empregando, de forma direta e indireta, milhares de pessoas, em um mercado de trabalho cada vez mais diversificado e competitivo. Desta forma, transnacionais como Nike, Adidas e outras empresas que atuam no segmento esportivo auferem ganhos extraordinários na economia mundial e, muitas vezes, chegam a influenciar a política interna dos países nas quais atuam, contando com a anuência das próprias leis nacionais. E não nos esqueçamos do grande aliado do futebol nessa dinâmica: a televisão, que com a difusão das competições futebolísticas contribuiu, decisivamente, para o aumento da rentabilidade do produto futebol.

Nesse contexto, é essencial analisar os possíveis impactos gerados no Brasil por sediar o megaevento, levando-se em consideração que a economia do país apresenta uma grande demanda por investimentos, os quais podem ser fruto de capitais provenientes da indústria futebolística e de outros setores que se desenvolvem por conta da “Copa do Mundo de 2014”, ocasião em que – não apenas durante o período do megaevento mas também desde todos os preparativos para a realização do mesmo – as luzes e holofotes internacionais encontram-se voltados para o país, fato que pode ser positivo ou negativo para o Brasil como um todo. No caso da “África do Sul”, país sede da “Copa do Mundo de 2010”, levantamentos apontam que, apesar desta ter sido a Copa mais lucrativas de todas até o momento, o megaevento gerou um aumento de apenas 0,5% no seu PIB.

Que para projeção da imagem externa de um país os sucessos no campo esportivo são por demais importantes, este é um fato irrefutável. Contudo, cabe aqui discutir se para o país que sedia uma “Copa do Mundo” as vantagens e ganhos daí originados são capazes de suplantar quaisquer problemas que possam vir a surgir e se, realmente, os ganhos econômicos advindos são maiores do que as perdas. Não obstante, deve-se ter em mente que se por um lado, sediar uma “Copa do Mundo” traz investimentos internos, novos empregos, melhorias na infraestrutura do país e crescimento econômico, por outro, cabe não negligenciar o fato de que, na maioria das vezes, este é um projeto que atende, apenas, aos interesses de uma minoria da sociedade, sem levar em conta outras prioridades mais urgentes que são postas de lado. Ademais, cabe ressaltar que o dinheiro público deve, sempre, ser utilizado visando o interesse da coletividade e não aspirações partidárias ou interesses corporativistas. Este questionamento assume grande relevância ao se analisar a realidade brasileira e se atentar para os inúmeros problemas existentes em nosso país, os quais, infelizmente, a maioria dos governantes prefere ignorar, especialmente os relacionados ao déficit habitacional, ao descaso para com a saúde pública, à corrupção, ao baixo nível educacional da população brasileira, à destruição do meio ambiente e a tantos outros problemas que são, sem sombra de dúvida, mais importantes para a população brasileira do que sediar uma “Copa do Mundo de Futebol”. Até porque, salvo em casos especiais, a população comum não terá acesso algum aos estádios que foram construídos ou reformados com parcela substancial de dinheiro público, visto que o valor dos ingressos, por ser extremamente elevado, não cabe no orçamento da grande maioria da população brasileira.

Destarte, o que aqui se procura abordar é se é realmente viável economicamente para o Brasil sediar a “Copa do Mundo de 2014”, conclusão esta que, já antecipando, está longe de unanimidade e, por isso mesmo, torna este um excelente exercício de reflexão. Em primeiro lugar, cumpre registrar que a organização de uma competição esportiva dessa magnitude envolve agentes privados e agentes públicos e, por mais que os lucros provenientes dos recursos econômicos investidos se tornem presentes, estes podem ser destinados apenas aos agentes privados. Feita esta observação, cabe analisarmos alguns aspectos econômicos bastante relevantes que embasam esta reflexão.

Pode-se constatar que, diante de uma “Copa do Mundo”, a construção, a ampliação ou mesmo a remodelação das instalações esportivas se tornam necessárias, impulsionando o setor de construção civil. Desta forma, o país-sede se compromete a cumprir uma série de exigências – o denominado “Caderno de Encargos da FIFA” – as quais são condicionantes para o sucesso da empreitada. São as chamadas obras de infraestrutura. Importante ressaltar que estas obras acabam criando empregos, contribuindo para o aumento da demanda agregada da economia e, de forma clara, impulsionam o crescimento do setor de construção civil. Em contrapartida, na medida em que grande parte do capital a ser investido na ampliação e construção das instalações esportivas é proveniente do setor público e não do setor privado, o dinheiro que poderia ser investido em outras áreas prioritárias é redirecionado para obras de infraestrutura para a “Copa do Mundo”. Em adição, conforme ocorreu na “África do Sul”, com o término da competição muitos se veem diante de instalações que não terão utilidade alguma no futuro, os chamados “elefantes brancos”. Outrossim, tais investimentos em instalações esportivas efetuados pelo governo e a promoção destes acaba por desviar a atenção acerca de outros fatos mais importantes como, por exemplo, políticas sociais. No Brasil, o caso concreto seria a retirada arbitrária das comunidades carentes que vivem nas proximidades do futuro estádio de futebol na localidade de Itaquera, em São Paulo: enquanto são investidos milhões na construção do estádio, a população carente é completamente negligenciada pelo governo.

Ainda tendo como exemplo a realidade da economia brasileira, diversas obras de infraestrutura que vêm sendo realizadas já foram paralisadas devido a suspeitas de superfaturamento, desvio de verbas, greves por melhores condições de trabalho e por graves acidentes. Os próprios estádios que estão sendo construídos ou reformados já ultrapassaram, em muito, o valor inicialmente orçado, sem contar que os gastos efetuados na reforma do “Estádio do Maracanã” possibilitariam construir dois novos estádios de altíssimo padrão mundial na Europa.

Outro ponto a ser considerado é o que diz respeito à afluência de turistas ao Brasil durante a realização da “Copa do Mundo”. Se, por um lado, isto fará com que o setor de turismo seja beneficiado e mais divisas estrangeiras sejam obtidas, por outro, o excesso de demanda ocasionado pelo elevado número de turistas estrangeiros no país poderá provocar uma acentuada alta de preços internos, pressionando a taxa de inflação, no caso de a estrutura econômica do país não ter capacidade para suprir o excesso de demanda gerado. Além do mais, deve-se levar em consideração que esse excesso de demanda pode pressionar positivamente os salários da economia, o que geraria impactos tanto na taxa de inflação quanto na rentabilidade de outros setores da economia.

A se ressaltar, também, que a própria expectativa dos agentes (públicos e/ou privados) com relação aos efeitos econômicos provenientes da competição esportiva pode provocar alterações significativas em algumas variáveis macroeconômicas, tais como o consumo e o PIB. Isso ocorre na medida em que uma visão pessimista acerca do sucesso na organização da competição pode causar um pequeno impacto no consumo, investimento e, consequentemente, no PIB brasileiro, ainda mais tendo em vista ser 2014, por conta das eleições presidenciais, um ano com uma potencial e crescente pressão inflacionária. Adicionalmente, o prestígio que o país adquire ao ser escolhido para sediar a competição pode se tornar, diante de algum problema grave ocorrido no decorrer da mesma, uma propaganda extremamente negativa que, sem embargo, irá causar graves danos à economia deste país.

Por fim – sintetizando esta pequena explanação dos prós e dos contras vivenciados pelo Brasil, sede da “Copa do Mundo de 2014” –,  um quadro no qual se pode identificar alguns aspectos econômicos diretos e indiretos e como estes se apresentam, seja de forma positiva ou negativa, para a economia do país, será por demais pertinente e esclarecedor para a melhor compreensão possível desta análise.

 

ASPECTOS ECONÔMICOS DIRETOS

ASPECTOS POSITIVOS  ASPECTOS NEGATIVOS

 

Construção, ampliação e remodelação de instalações esportivas Altos custos oriundos de tais obras 

Risco de um planejamento inadequado

 

Risco de gerar “elefantes brancos

 

Desvio de atenção e de recursos que deveriam estar sendo direcionados a áreas potencialmente mais prioritárias, como Saúde, Habitação, Saneamento e Educação

Construção e melhorias provenientes de obras de infraestrutura Altos custos oriundos de tais obras, devido a superfaturamentos e desvios de verbas
Aumento da eficiência dos transportes públicos Muitas vezes pode apenas mascarar a realidade corrente
Impulso ao crescimento do setor de construção Risco de alta generalizada dos custos de construção, a qual pode vir a afetar outros setores da economia
Gastos de turistas que adentram o país para a Copa Risco de inflação generalizada se a estrutura econômica do país não suporta, adequadamente, o excesso de demanda ocasionado 

Alteração na agenda de turistas mais frequentes e empresários de outros setores, os quais preferem evitar o excesso de pessoas e os preços excessivamente elevados de hotelaria

Maior entrada de investimentos estrangeiros Condicionantes que atentam contra a soberania do país

 

ASPECTOS ECONÔMICOS INDIRETOS

 ASPECTOS POSITIVOS

 

 ASPECTOS NEGATIVOS
Melhora na expectativa de desempenho econômico Pressão que pode levar governos a mascarar dados econômicos
Aumento da produtividade da economia, gerado pelo sentimento de orgulho nacional e esforços para o sucesso do evento Perda da produtividade da economia durante o evento, em função do excessivo número de feriados
Publicidade do país como destino turístico Alto risco de uma má publicidade no caso de a organização da competição ser um fracasso

Em suma, estes são os aspectos econômicos considerados por parcela significativa de analistas como sendo relevantes para a análise sobre ser economicamente viável ou não a realização de um evento esportivo de tamanha magnitude no Brasil. Cabe analisá-los e refletir sobre a atual situação brasileira.

————————–

ImagemEsta não é a Copa do Mundo que Queremos” (Fonte):

http://espiritosantoturismo.blogspot.com.br/2012_10_18_archive.html

————————–

Fontes consultadas:

ROLDÁN, J. F. Más que Fútbol: Economía y Geopolítica del Mundial de Sudáfrica. In: Revista Forum Doctoral. Número 2. Janeiro/Junho de 2010.

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: a Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – o Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ. Rio de Janeiro: Novembro de 2011.



Mario Joplin - Colaborador Voluntário

 
Mestre em Relações Internacionais pela UERJ, Especialista em História das Relações Internacionais e Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRJ. Possui experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Política Internacional e Formação Econômica Brasileira. Foi bolsista de FAPERJ por um ano e Bolsista de Vocação para Diplomacia do Instituto Rio Branco (IRBr) por 4 (quatro) anos. Áreas de interesse: Esporte e Relações Internacionais; Diplomacia Futebolística; e Soft Power e Política Externa.