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Células radicais financiam o Hezbollah a partir do Sul do Brasil

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O Hezbollah (Partido de Deus), fundado como milícia, em 1982, no Líbano, durante a Guerra Civil, é, hoje, uma força islâmica xiita preeminente no combate a Israel e ao Ocidente. A sua estrutura é semelhante à de um Exército, formada por um grupo paramilitar que tem se notabilizado em várias frentes de combate, inclusive nos conflitos travados contra Israel. Ao longo dos anos, o Hezbollah também conquistou destaque na política libanesa e chegou ao Parlamento do país. Atualmente, os seus combatentes estão atuando na Guerra Civil da Síria em defesa do presidente Bashar al-Assad, ao lado do Irã.

Autor de vários atentados, incluindo aquele que foi perpetrado contra a Embaixada de Israel, na Argentina, em 1992, o Hezbollah é considerado pelo Ocidente uma organização terrorista. Com grande capacidade de ação e logística complexa, o grupo necessita de financiamento e de aliados que não estão restritos ao Oriente Médio, tendo a América Latina se destacado ao longo do tempo no apoio e financiamento ao Hezbollah através de suas células radicais. No Brasil, o Hezbollah mantém ligações com a maior organização criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atua em praticamente todo território nacional[1].

Esta foi uma descoberta realizada pela Polícia Federal mas, desde 2006, o Departamento de Tesouro dos EUA já havia emitido um alerta acerca da cooperação do Hezbollah com os cartéis do crime na América do Sul, com forte presença na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai)[2]. Na época, todos os Governos do continente foram notificados, mas os de esquerda não deram atenção ao aviso, tendo o Governo brasileiro negado o fato. No entanto, o Drug Enforcement Administration (DEA) pressionou o Governo brasileiro e insistiu sobre a presença de integrantes do Hezbollah em território nacional[3].

No Brasil, o caso nunca foi admitido oficialmente pelo Governo, mas a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) apurou o envolvimento de empresários de origem libanesa com o narcotráfico e com ligações ao Hezbollah. De acordo com o jornal O Globo, vários documentos esclarecem o elo entre o movimento xiita libanês e a facção criminosa do Brasil, o PCC, desde 2006, quando a associação teve início[4]. Esta união criminosa só foi descoberta em 2008, durante uma operação da Polícia Federal, na qual vários traficantes internacionais foram presos[5]. Na “Operação Camelo”, da Polícia Federal, Farouk Abdul Hay Omairi, um comerciante de origem libanesa, residente em Foz do Iguaçu, foi preso por tráfico internacional, assim como os seus dois filhos, sendo que o mais novo conseguiu fugir. O inquérito tratou somente do narcotráfico, mas Omairi fazia parte da lista de nove nomes apontados pelo Departamento de Tesouro dos EUA referente à “rede de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira[6], sendo Omairi o líder dessa força radical islâmica na região[6].

De acordo com as informações divulgadas pela imprensa brasileira, há um acordo entre as duas facções, segundo o qual os libaneses detidos nas prisões brasileiras recebem proteção do PCC e, em contrapartida, o Hezbollah trata do fornecimento de armas e explosivos ao aliado brasileiro[7]. Há indícios de que a Venezuela, em 2009, durante o Governo do Presidente Hugo Chávez, se tornou uma base aliada do Hezbollah. Neste período, ocorreu o estreitamento das relações entre a Venezuela e o movimento xiita, que tencionava praticar atentados em países da América Latina, incluindo o Brasil. Na época, recorde-se, os Serviços de Inteligência israelenses declararam que o Hezbollah pretendia atentar contra alvos de Israel no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no Peru. Segundo informações, naquele período foram criadas, na Venezuela, células ligadas ao “braço operativo” do Hezbollah, denominadas “Órgão de Pesquisas Especiais”, para praticar atentados no exterior[8].

Um relatório do Conselho Americano de Política Externa revela, também, que a Tríplice Fronteira é utilizada por redes terroristas há bastante tempo, não sendo o Hezbollah o único grupo irregular presente na região. O relatório afirma que a falta de legislação antiterrorista brasileira tem beneficiado a presença dos insurgentes no país[9]. Neste contexto, desde os anos de 1980 tem-se registrado o crescimento do movimento islâmico radical no Brasil, através do Irã. Conforme descreve o relatório, “este movimento é composto por clérigos radicais, terroristas, traficantes de influência e de lavagem de dinheiro, e articuladores que usam o país como um centro de logística para muitas de suas operações regionais que se estendem do Cone Sul aos Andes. A mais preeminente destas operações foi o bombardeio do Centro Comunitário Judaico em Buenos Aires (AMIA), Argentina, em 1994, que, em parte foi apoiado por elementos radicais islâmicos no Brasil e na Tríplice Fronteira[10]. De acordo com informações, o mentor do ataque ao AMIA, que fez oitenta e cinco vítimas mortais e cerca de trezentos feridos, foi o iraniano Moshen Rabbani, apontado por Alberto Nisman, Procurador argentino, como o responsável do regime iraniano, na América Latina, para a criação de uma “rede de radicais islâmicos[11].

Após o atentado contra o AMIA, Rabbani fugiu para o Irã, tendo a Interpol emitido um alerta, o que impossibilitou, naquele momento, o seu retorno ao Brasil. No entanto, há provas de que, mais tarde, ele viajou duas vezes ao Brasil e, em 2008, foi monitorado pela ABIN, que o seguiu no percurso entre Curitiba e a Tríplice Fronteira. Curitiba foi identificada como sendo a residência de Mohammad Baquer Razavi Rabbani, irmão mais novo de Moshen Rabbani e o responsável pelo recrutamento e a conversão de brasileiros ao Islã radical através da Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib e do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos, ambos sediados em Curitiba[12].

Em 2010, Moshen Rabbani voltou ao Brasil com um passaporte venezuelano falso, usando o nome de Ali Tayvdianareial. A Interpol advertiu a Polícia Federal brasileira sobre a presença de Rabbani, mas ele já havia deixado o país. De acordo com informações, a ABIN tinha conhecimento do retorno de Rabbani ao Brasil, mas a vigilância foi abortada por motivos desconhecidos[13]. O mais jovem dos Rabbani teve o seu visto cancelado em 2011.

A conexão entre vários grupos irregulares, no Brasil e na Tríplice Fronteira, é de longa data e, dentre esses grupos, além do Hezbollah, destacam-se o Hamas, a al-Qaeda, a Jihad Islâmica egípcia e a al-Gamaa al-Islamyya, também do Egito. A facilidade em estabelecer negociações ilícitas na Tríplice Fronteira despertou o interesse dos líderes daqueles grupos radicais, necessitados de dinheiro para manter as suas organizações. Em 1995, Osama bin Laden e Khaled Sheikn Mohmmed, o idealizador dos atentados de 11 de setembro, nos EUA, visitaram a Mesquita de Foz do Iguaçu e, em 1998, retornaram para se reunirem na mesma Mesquita com outros líderes radicais[14].

Hoje, alguns analistas acreditam que a facilidade de acesso do Hezbollah e outros grupos radicais à América Latina está em decadência, devido a pequenas mudanças ocorridas na política externa do continente, desde a morte de Hugo Chávez[15] e, também, da tentativa de reaproximação entre Cuba e os EUA. Embora estas evidências sejam verdadeiras, tal não significa, de fato, uma mudança na política externa dos países de esquerda do continente. Ideologicamente, a esquerda latino-americana continua irmanada e partilha visões do mundo semelhantes. De certo modo, ela compreende os grupos radicais islâmicos como sendo parceiros de “esquerda” que, na verdade, não abdicam do fundamentalismo religioso que tem os seus próprios princípios, divergentes daquilo que conhecemos por esquerda política.

Neste sentido, vários observadores, analistas e especialistas no tema apontam que a Tríplice Fronteira permanecerá sem cobertura e os países da região continuarão a ser placas giratórias para a entrada dos insurgentes, garantindo, assim, o financiamento do Hezbollah e demais grupos irregulares, enquanto  a sociedade brasileira enfrenta o risco de uma islamização radical, sem descartar a hipótese de que um dia, por pouco provável que possa parecer, o país venha a sofrer as consequências das opções estratégicas erradas de seus dirigentes políticos.

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ImagemUm judeu argentino caminha pelas ruínas do edifício do AMIA (direita, na foto), em Buenos Aires (18 de julho de 1994): as últimas ordens recebidas pelos insurgentes do Hezbollah partiram do telefone de um morador de Foz do Iguaçu, no Brasil” (Fonte):

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2013/06/terrorV2.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[2] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[3] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[4] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[5] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[6] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[7] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[8] Ver:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/jornal-diz-que-hezbollah-teria-bases-na-venezuela-com-intencoes-de-atacar-ate-o-brasil/

[9] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[10] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[11] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[12] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[13] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[14] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[15] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

About Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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