Home / NOTAS ANALÍTICAS / A Hipótese de divisão do Iraque em dois Estados

A Hipótese de divisão do Iraque em dois Estados

Download PDF

O momento de grave crise política e de violência no Iraque levanta a hipótese de uma possível divisão do país como solução para pôr fim ao conflito, cujas origens, para especialistas no assunto, como Delovan Barwari, ExPresidente do Conselho CurdoAmericano da Califórnia e ativista dos direitos dos curdos, remontam à fundação deste Estado.

A rápida ascensão do Estado Islâmico, no Iraque, assim como as rivalidades internas, são, em parte, consequência do modo como o país foi criado pela GrãBretanha, em 1932, a partir de fronteiras imprecisas e sem levar em consideração as diferenças étnicas, culturais e religiosas do território[1].

O Iraque teve origem em três províncias otomanas semiautônomas e distintas, sem nenhum elo que pudesse unificá-las em uma só nação. Estas três províncias, desde o princípio, caracterizaram-se por ter identidade própria: a Província de Mosul é curda, a de Bagdá, sunita, e a de Basra, xiita[2].

Ao transformar aquele território etnicamente diferenciado em um Estado, os britânicos indicaram um rei hashemita, Faisal I, para ocupar o seu trono, mas a monarquia não teve vida longa e sucumbiu na sequência de um Golpe de Estado, em 1958. Com a República, a minoria sunita assumiu o poder no Iraque e permaneceu nele até 2003, quando os EUA derrubaram Saddam Hussein.

As disputas internas iraquianas são uma constante e têm servido para alimentar guerras e evidenciar as divisões étnicas, religiosas e culturais do país. Hoje, o Estado Islâmico segue dominando cidades importantes e pontos estratégicos do Iraque. Os insurgentes têm explorado a lacuna surgida, principalmente durante o Governo do primeiroministro xiita Nouri Kamel alMaliki, que desenvolveu uma política de exclusão dos rivais sunitas[3]. Os problemas políticos iraquianos têm se agravado e as suas instituições estão destroçadas. Hoje, a realidade evidencia o pessimismo quanto a um possível retorno do país àquilo que ele já foi no passado, ao mesmo tempo que os sunitas não pretendem estar submetidos a um Governo xiita vinculado ao Irã[4].

A partir de análises efetuadas sobre o evoluir dos acontecimentos, muitos especialistas sugerem como a melhor solução para o Iraque a sua divisão em dois Estados. Os defensores da partilha acreditam que esta opção é mais humana e poupa vidas, pois os acordos serão alcançados através de negociações e não de guerras. Alguns estudiosos do assunto procuram justificar o argumento através da teoria clássica de Wilson, segundo a qual “o nacionalismo separatista decorre de fronteiras ruins e de culturas incompatíveis[5].

A violência permanente que assola o país e que, em várias ocasiões, tem chocado a comunidade internacional não é, de fato, o resultado de condições construídas unicamente no presente, mas enraizadas em fatores históricos e culturais. O ciclo de violência que descredencia o Governo xiita do Iraque, aliado às privações econômicas sofridas pela população, permitem o acolhimento e o apoio ao Estado Islâmico por parte de muitos iraquianos marginalizados[6] que, direta ou indiretamente, procuram uma nova alternativa a partir de algo que acreditam estar em conformidade com a sua cultura e religião.

É a aceitação de uma parcela da população iraquiana que tem permitido o avanço dos radicais do Estado Islâmico que se configuram, hoje, não simplesmente como insurgentes comuns, mas como milicianos experientes que, munidos de táticas de guerrilha e de guerra convencional, têm conquistado não só o território, mas o vácuo de poder deixado pelo Governo.

Se a divisão do Iraque é a melhor hipótese para o país e sua população, conforme assinalam os analistas, esta é uma condição que poderá ser verificada somente no futuro, apesar de o presente ressaltar a importância da existência de fronteiras precisas e o respeito pela identidade étnica e cultural do povo iraquiano.

————————————————————————————————

Imagem Porta de Ishtar (Babilônia, cerca de 575 a.C.), atualmente no Museu do Pérgamo, Berlim” (Fonte):

https://notsincenineveh.files.wordpress.com/2010/09/fotopedia-ishtar1.jpg

————————————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.mintpressnews.com/iraq-return-three-state-solution/193138/

[2] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/delovan-barwari/a-twostate-solution-for-iraq_b_6741768.html

[3] Ver:

http://www.cfr.org/iraq/islamic-state/p14811

[4] Ver:

http://edition.cnn.com/2015/05/23/opinions/baer-iraq-two-state-solution/

[5] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/delovan-barwari/a-twostate-solution-for-iraq_b_6741768.html

[6] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/delovan-barwari/a-twostate-solution-for-iraq_b_6741768.html

About Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

Check Also

Medidas governamentais de atenuação dos efeitos da seca em Cabo Verde

Cabo Verde enfrenta um período de estiagem severa que se prolonga desde o início deste ...